Metodologias de pesquisa do antropólogo Egon Schaden são repetidas décadas depois

Metodologias e estudos de Egon Schaden chegam ao nosso conhecimento a partir do Projeto Diálogos Sobre Egon Schaden

A diretoria do IES tem comemorado não somente o ótimo conteúdo produzido com a realização do Projeto Diálogos sobre Egon Schaden, como também os bons contatos e as descobertas que se dão a cada edição mensal das “lives”.

No 5º encontro do projeto, realizado no dia 4 de maio de 2020 e que teve como tema “Egon Schaden e a questão indígena”, recebemos a demógrafa e antropóloga Marta Maria do Amaral Azevedo. A convidada mencionou uma metodologia criada pelo professor Egon Schaden, quando propôs aos indígenas que desenhassem situações que eles estavam vivendo na aldeia e, em seguida, o antropólogo faz uma análise desses desenhos.

Produzidos entre as décadas de 1940 e 1950, os desenhos foram feitos pelos indígenas Kaiowá-Guarani da Aldeia de Panambi, do Sul do Mato Grosso (na época não havia a separação com Mato Grosso do Sul) e esses desenhos foram publicados na Revista da USP(*) em dezembro de 1963, em forma de artigo do professor Schaden. A partir da referência feita por Marta Azevedo, localizamos o artigo, com a ajuda da pesquisadora Tatiane Klein – que fez a pesquisa e enviou a referência.

Os originais dos desenhos estão no Museu de Culturas Mundiais [Weltkulturen Museum, dedicado às Culturas do Mundo (antigo Museu de Etnologia)], em Frankfurt, Alemanha. A presidenta do IES Tânia Welter e o diretor científico Pedro Martins, em visita ao Museu, conheceram este material, apresentado pela curadora/coordenadora Mona Birgt Suhrbier. Os originais estão inclusive cobertos com o papel transparente onde o professor Egon descreve a situação de acordo com os indígenas, explicando cada desenho.

No artigo publicado pela Revista da USP, Schaden explica que os Guarani não tinham, na época, a prática de desenhar e expressavam sua arte através do canto e da dança, além de alguma arte plumária em adereços de uso cerimonial. Assim, o estudioso lhes apresentou o lápis e o papel e propôs a produção dos desenhos:

 

  • A êsses índios, que não têm nenhuma arte gráfica, entreguei papel e lápis para desenharem. Mal sabiam de que se tratava. Viam-me sempre tomar apontamentos em minha caderneta, mas, incapazes de compreender o meu mbopará, nome que dão à escrita, isso para êles pouco podia significar.

Várias décadas depois, nos anos 1999/2000, Mona Birgt Suhrbier realizou a mesma experiência com os Guarani*:

 

  • Nos anos 1999/2000 durante três meses visitava regularmente uma aldeia Guarani Mbyá, chamada Teko Wy’a Pyau (Nova Esperança, em português), na Terra Indígena Guarani de Itaoca, município de Mongaguá no estado de São Paulo. Os Guarani dessa aldeia sobreviviam coletando restos de comida e latinhas de alumínio no lixão municipal. Lá colecionei artesanato para o museu em Frankfurt. Me lembrei dos desenhos da aldeia Panambi, colecionados por Egon Schaden no ano 1949, e pedi para a população da aldeia desenhar para mim.

O artigo “A poética da fome na arte Guarani” da pesquisadora, em conjunto com Mariana Leal Ferreira, foi publicado na Revista do Museu de Arqueologia e Etnologia no ano 2000.

Para a presidenta do IES, Tânia Welter, a pesquisa e análise de Mona Suhrbier com os desenhos indígenas demonstram a contemporaneidade e importância da metodologia e reflexão antropológica de Egon Schaden. Tânia Welter relata que “Em 2018, Mona veio ao Brasil, inclusive esteve em Florianópolis participando do Congresso Mundial de Antropologia, onde apresentou os resultados dessa análise, que constam nos anais do congresso e podem ser acessados pela rede. É muito interessante ver a apropriação da metodologia criada pelo professor Egon Schaden na década de 1940 em pesquisas contemporâneas. Ela é a prova da relevância, importância e contemporaneidade das teorias e metodologias criadas pelo professor Egon Schaden”, destacou Tânia.

 

Desenho de Karaíresá, Kayová-Guaraní realizado durante pesquisa do antropólogo Egon Schaden na década de 1940/1950.

Para saber mais:

SCHADEN, Egon. (1963). Desenhos de índios Kayová-Guarani. Revista de Antropologia. Universidade de São Paulo, São Paulo, 11(1-2), 79-82.

https://www.revistas.usp.br/ra/article/view/110689

SUHRBIER, Mona Birgt. A coleção de desenhos Guarani de Egon Schaden. 18th IUAES WORLD CONGRESS. Anais… Volume 3. Florianópolis, 16-20 julho 2018. https://www.pt.iuaes2018.org/conteudo/view?ID_CONTEUDO=766

SUHRBIER, M. B., & FERREIRA, M. L. (2000). A poética da fome na arte Guarani. Revista do Museu de Arqueologia e Etnologia, São Paulo (10), 211-229. https://www.revistas.usp.br/revmae/article/view/109388

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